• Wilson Nomura

A Receita do Universo



- Senhores e senhoras, vai começar agora a competição entre Rahum e Fediv, sobre a criação do universo. Estão prontos e a postos?


- Sim, Deus! - respondem em uníssono.

- Muito bem, para começar, darei um preâmbulo:


Antes de tudo, é essencial juntar todos os ingredientes formadores deste bolo universal, onde cada um tem propriedades particulares, que interagem entre si, formando novas substâncias e novas forças atuantes na receita toda. Por favor, Rahum e Fediv, anotem a lista!

Em primeiro lugar, criaremos a força nuclear, constituída pelo ingrediente do amor criativo, universal e pleno da vida, perpétuo pelo seu principio ativo, abrangendo desde a dimensão microscópica até a macroscópica, materializado pela estrela solar. A sua dosagem perfeita equilibra o tempero doce generativo com o do amargo destrutivo, garantido a estabilidade existencial.


Em segundo lugar, usaremos a força da gravidade, estabelecida pelos ingredientes da admiração salgada, exercida pelo astro solar, que aglomera em sua volta, galáxias, planetas e satélites, que se exagerada, transforma-se em rota de colisão invejosa, entre os componentes entre si, impossibilitando a vivência harmoniosa.


Em terceiro lugar, aplicaremos a força eletromagnética, exercida pelos ingredientes atômicos, nos planetas dos relacionamentos da afinidade atrativa, através de pólos semelhantes elétricos do conhecimento inicial e superficial, e pólos opostos magnéticos do conhecimento temporal e profundo; e por meio da repulsa antipática, através dos pólos opostos elétricos do conhecimento inicial e superficial, e pólos semelhantes magnéticos do conhecimento temporal e profundo.


A receita total e perfeita, mesmo seguida rigorosamente nos passos e nos ingredientes na dosagem correta, resultará em colapso do amor estelar, da admiração cósmica e da tolerância global, ser não for condimentada pelo tempero primordial da fé, cuja falta azeda qualquer criação. Estão todos de acordo, Rahum e Fediv?


- Eu concordo plenamente, Deus! – respondeu Fediv.

- Eu, sinto dizer, mas eu discordo completamente!- contradisse Rahum.

- Tem certeza disso, Rahum?

- Sim, basta obedecer a fórmula e teremos o resultado garantido.

- E você, portanto, anotou tudo detalhadamente, para ser vitorioso nesta competição.

- Bem, na verdade, não. Não anotei nada dos componentes, dos procedimentos e das dosagens.

- E por que não, já que, sem eles, a criação seria impossível.

-Deixei tudo para uma entidade, que resolverá tudo, sem sequer a minha mão intromissora.

- Quer dizer que você é um impostor, pois terceirizará a tarefa exigida?

- Sou, na verdade, representante desta entidade.

- E, como se chama este “masterchef” verdadeiro, já que você não passa de um charlatão?

- Desse jeito, o senhor Deus, me ofende, com todo respeito.

- Sou eu que se acha ofendido, RAHUM!!!

- Calma Senhor Deus! O senhor mesmo apontou a tolerância como ingrediente essencial para a convivência pacifica.

- Exatamente, mas, paciência tem limite, e o senhor conseguiu o milagre ou a maldição de excedê-la. Onde já se viu... deixar Deus furioso!

- Se acalmar-se, poderei explicar!

- Muito bem, terá esta chance divina!

- Obrigado. Espero convencer o senhor!

- Duvido muito!


- Bem, como disse, a fé é componente dispensável para a feitura do bolo universal. O meu patrão, o Caos, cuidará de tudo!


- Fala sério, sabe com certeza, do que seja seu chefe, o Caos?


- Sei sim. É o vazio e estado geral primordial de caráter informe, desordenado, indiferenciado, ilimitado e indefinido de elementos que precederá e propiciará o nascimento de todos os seres e realidades do universo.


- E, se o Caos, segundo suas próprias definições, não possui caráter definido, ordenado e limitado, sem habilidades e capacidade positivas, como ele possui a faculdade de executar a receita cósmica para você, para mim?


- Bem, eu creio nisso! O Caos existe!

- Não duvido de sua existência, mas de sua competência.

- Sou eu que duvido da sua existência e competência. Não tenho fé no senhor.

- Como pode dizer isso, na minha frente, sendo que me vê, me ouve e interage comigo.

- Neste momento, não consigo explicar. Tudo isso deve ser um sonho, uma ilusão.

- Prefere acreditar no Caos, mais intangível, inatingível e incompreensível que eu?

- Sim, eu tenho esta liberdade!

- Com certeza, tem. Muito bem. Vou assumir que está correto. Vamos voltar ao começo. Você dizia que não anotou nada dos ingredientes. Como o Caos vai utilizá-los?

- Não sei; só ele sabe.

- E, ignorando passo inicial tão importante, supondo que pela sorte, ele consiga descobrir todos eles, após, não sei, milhões ou infinitas tentativas. Como ele copiará os passos seguintes, já que ele é, presumivelmente, isento de qualquer discernimento, organização e inteligência?

- Já disse que não sei nada disso. O Caos cuidará de tudo.

- Sua fé em algo tão ilógico, desprovido de memória, inteligência e objetivo, que me consterna e me decepciona. Como pode tal característica ainda pode guiar, digo, desorientar a alma humana?

- Mais uma vez, preciso discordar do senhor, com to...

- Sim, já sei; me respeita com palavras e me desrespeita com atitudes. E já que essas são as regras do jogo, que o senhor desrespeitou, em primeiro lugar, declaro esta competição encerrada, e o competidor Fediv, vencedor!

- Mas, como? Não dará chance ao meu chefe, o Caos?

- De jeito nenhum, será um desperdício de tempo, do meu infinito tempo, precioso, mesmo assim.

- Mesmo assim, continuarei seguindo meu “masterchefe”!

- Bem, o livre arbítrio supõe responsabilidades e suas conseqüências!

- Estou ciente disto.

- À propósito, gostaria de saber a origem de seu nome estranho diretamente de você, e não de minha onisciência.

- Certamente. Na verdade, Rahum é uma abreviação silábica de duas palavras, que são Razão Humana!

- Razão Humana! Entendi; isso explica tudo! E você, Fediv, o que você significa?

-Como se o senhor não soubesse! Mas, vou explicar para o Rahum. Fediv também é uma contração de duas palavras: Fé Divina.

- Sacanagem! Se soubesse disso não entraria nesta competição de cartas marcadas, seus charlatões, com todo respeito!

- Pois saiba a RAZÃO HUMANA, que na questão da criação universal de Deus, o veredicto a favor da FÉ DIVINA é inquestionável, irrevogável e inapelável!

Wilson Nomura

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