• Wilson Nomura

O legado da fortuna. Desde o primeiro segundo do nascimento, estamos fadados ao último...


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Desde o primeiro segundo do nascimento, estamos fadados ao último inexorável da vida e pioneiro e instantâneo da morte, cujo sonho de se evitar, percorre o consciente e inconsciente de todo ser vivente, desejoso de vencer o mais terrível mandamento existencial e moral divino, por sua natureza inegociável, implacável, cruel, injusta e ditatorial.

Daí o desejo irresistível ou a necessidade premente de se ignorar o fado executado coletiva ou individualmente, até o último suspiro vital, ou além dele, através do ressuscitamento cardiovascular.

A negação do destino fatídico causa a amnésia da postura vital, praticando-se a morosidade da eternidade, só interrompida com o despertar do anúncio desgraçado, através de algum mensageiro humano, enganosamente, tachado de cruel e inconveniente, pela quebra do protocolo comum universal, quando passamos a valorizar cada segundo vivido, tornado raro como a gota de água num deserto sem o oásis úmido.

O aviso mais urgente, real e premonitório da data próxima em dias, meses ou anos, nos força a encarar o maior inimigo da vida, numa batalha praticamente perdida, de cartas marcadas, no jogo fraudado de resultado previsível, salvo raras exceções, onde a fé miraculosa reverteu o desfecho, ao menos, temporariamente.

Nascido em lar cristão, crescido em centros espíritas, casado no templo budista e batizado na igreja evangélica, nenhuma religião trouxe-me conforto satisfatório, a não ser o conjunto particular da salada de alguns dogmas variados, homogêneos em alguns ingredientes, conflitantes em outros, temperado com minha desajeitada filosofia moral.



A fé do após morte, de embalagens diferentes, possui único conteúdo essencial, que me fortalece a enfrentar a vida com o devido destemor e entregar-me à morte com a necessária espera, passivamente, invertendo o heroísmo dos que lutam contra o passamento bravamente, mas que, na verdade, a que se acovardam inutilmente, pois a coragem exigida perante a sina é muito maior.

Não se deve confundir o desespero da fuga do sofrimento da vida, pelo suicídio lento ou rápido, renegando-se a valentia aventureira natural, que devia ser igual à gêmea sobrenatural, demonstrado cegamente, nessas circunstâncias errôneas e excepcionais, onde o medo da morte é menor que o medo da vida.

A dúvida da permanência das atribulações pós-morte, principalmente, na questão dos julgamentos morais celestiais ou infernais, relativos às ações, sentimentos e pensamentos durante a estadia terrestre, constitui, certamente um dos maiores motivos da fobia desencarnatória .

A rebobinação célere e instantânea de toda a vida do morto, num piscar de olhos, é uma experiência, que gostaria de ter, em vida, com direito a slow-motion dos momentos mais agradáveis, memoráveis e significativos, com o privilégio de avanço rápido das lembranças mais tristes, ingratas e infelizes e com algumas pausas de reflexão sábia e evolutiva.

Também gostaria de assistir ao filme da minha vida, em sessão privada, somente Deus e eu, preferivelmente, sem o testemunho constrangedor de algum anjo acompanhante, a compartilhar a onipresença divina.

Desejo que a plateia convocada não seja a diabólica, com o seu mestre a rir com exagerado escárnio, dos momentos mais íntimos das minhas batalhas perdidas para ele.

Espero que o meu legado medíocre financeiro e de realizações humanas considere a limitação razoável das minhas capacidades cognitivas, intelectuais e emocionais, em contraste com os grandes protagonistas da história da humanidade, com feitos memoráveis e surpreendentes, de acordo com as respectivas qualificações naturais ou desenvolvidas.

O fato é que, quanto maior, complexa e desafiadora a aventura humana, maior é a chance de se cair em alguma tentação soberba, prejudicando os próximos, traindo os amigos pelo dinheiro ou pela luxúria ou assassinando os inimigos sem necessidade.

Fortuitamente, em minha lápide, de valor e mensagem comuns, mas verdadeiros, não será gravada com o texto cínico, pessimista e trágico, do personagem Brás Cubas, de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.


Wilson Nomura

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