• Wilson Nomura

Amigos ontem, inimigos hoje


Imagem: DomTotal


Tão logo a pandemia se globalizou, viajando em todas as classes dos vôos transcontinentais, chateei-me com a obrigatoriedade da máscara, a ocultar o meu perfil do qual me orgulhava, mesmo não sendo tão social, com poucos, mas fiéis amigos de longa data, acrescido do enclausuramento compulsório, como um condenado de crime grave e proporcional cumprimento de pena, sem data prevista de soltura, cuja rebeldia livre e desmascarada poderia resultar em morte contagiada e contagiosa a outrem. A ansiedade da liberdade segura e legal contava os dias da reclusão sanitária.

Hoje, dois anos após, com a liberação interna e externa da peça de vestuário salvador, o meu corpo está desobrigado, mas o espírito ainda permanece preso, procurando se desacostumar da condição anterior, e atualizar na nova e velha situação de convívio social, revivendo a timidez da adolescência.

Será preciso certo esforço para eu voltar ao que era no passado, tarefa impossível à quase toda humanidade, imagino, a menos que eu seja uma exceção entre muitos, hipótese, mais plausível, visto eu abraçar e apreciar a solidão nos últimos cinco anos, acostumado com minha própria companhia, que tudo me entende e me perdoa.


O medo é encontrar amigos, inimigos em questões ideológicas, políticas, sexuais e sociais, antes ocultas e minimizadas nas conversas amigáveis, hoje anunciadas aos quatro ventos, com soberba, sem pudor, com ódio, arrogância, intolerância e estupidez, ao condenar os contrários nas opiniões, em geral, totalmente emotivas e irracionais, sem fatos comprobatórios, num fanatismo exacerbado de dar dó e medo.

Quanta decepção de amigos, supostamente equilibrados, sensatos, inteligentes e espertos, que condenam o seu perfil público, habilmente oculto, sob outra identidade, ou exposto em grupos virtuais seletos.

O radicalismo opinativo contagia todas as classes econômicas, sociais, intelectuais e eruditas, portanto, não por falta de cognição, mas por carência emocional, de se pertencer a um grupo social, com fé descontrolada, sem freio racional, situação anteriormente provida sensatamente pelo convívio de amigos e parentes, ainda que num nível mais superficial.

O mal não está somente na politização e ideologia da verdade, da qual somos todos, vítimas, mas da maneira como é defendida e atacada com total isenção de empatia fraternal, divulgando-se a cólera sectária, impossibilitando o convívio pacifico entre as correntes contrárias.


A ganância de poder político e monetário dá o tom agressivo e destrutivo do relacionamento entre os cidadãos, declarados inimigos entre si, pelos seus eleitos e pelos próprios eleitores, originando todas as causas dos conflitos armados há varias décadas.

Amizades que poderiam se aprofundar até os níveis mais profundos e complexos dos mais variados aspectos da sociedade, tendem a se quebrarem à mais leve e insignificante discordância de convicções em geral, cenários anteriormente impossíveis, pela superficialidade das relações, restritas a conversas e atividades amenas, inconsequentes e sociáveis, tal é a imaturidade emocional da humanidade.

O advento da Internet móvel só piora o contexto, pela divulgação de fake-news furiosos e condenatórios dos divergentes de opinião, incrementado com os diálogos superficiais, hoje virtuais, antes presenciais.


Vitória quase milagrosa é a amizade que sobrevive a todos os efeitos colaterais da pandemia supra comunicativa virtualmente, e silenciadora presencialmente.

Haverá mais paz mundial, quando os eleitores inimigos politicamente, e amigos socialmente, discordarem respeitosa e educadamente dos argumentos opostos recíprocos, intencionando-se descobrir a verdade parcial ou total do outro, e vice-versa, eventualmente, abraçando-a e defendendo-a, como se fosse pertencente à sua própria ideologia e opinião, pois o governo de políticas adversárias deve se basear sobre a verdade dos fatos, opiniões, conceitos e idéias, sem se importar com a origem direitista ou esquerdista.

O problema é execução maligna das diretrizes concorrentes, visando domínio a todo custo, inclusive o militar e beligerante. Neste estágio, os amigos de cerveja, de churrasco e de baralho, convertem-se em inimigos mortais de farda.



Wilson Nomura

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