• Wilson Nomura

A materialização de Deus



Nunca a presença de Deus esteve tão constante na vida do cidadão, quanto no século XXI, a destacar a biblioteca crescente de títulos a seu respeito, a proliferação de conteúdo nas mídias sociais, a multiplicação de programas diários, alem dos dominicais, no rádio e na TV e as igrejas e templos cheios de fiéis.

Um cenário tão crente e fiel deveria alegrar o objeto de adoração inequívoca. Todavia, o status mundial não reflete o intenso comportamento apregoado e difundido, permanecendo em estágio de selvageria, ignorância, belicosidade, barbaridade, ganância, bestialidade e descrença, em vários aspectos, mais condizente ao mito da Idade das trevas medieval.

Guerras contínuas, refugiados mortos sem pátria, governos corruptos, oligarquias do poder do dinheiro, dominantes, metade da riqueza global concentrada em menos de dez por cento da população, multinacionais gananciosas de remédios, alimentos e combustíveis, casos permanentes de feminicídio, tráfico de mulheres, crianças, drogas e armamentos, intolerância religiosa, política, racial, de gênero e social, abusos sexuais no trabalho, e por aí vai, a lista quase infindável da “evolução” humanitária, tão sonhada para o século XXI, utopia de felicidade e bem estar, garantida pelo progresso material tecnológico imenso.

É claro e evidente que o resultado ficou aquém do esperado, visto que as consequências se restringiram ao conforto material, em relevância o aumento absurdo dos meios de comunicação, incluindo dispositivos interativos e imersivos, mantendo a conexão virtual 24 horas por dia, graças aos servidores de dados espalhados ao redor do mundo, permitindo arquivamento de mídias e textos nas nuvens.




No aspecto do relacionamento social nada causou mais impacto, criando-se, a aldeia global, um conceito cunhado em 1960, pelo filósofo Herbert Marshal Macluhan, que afirmava: “As novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias e o progresso tecnológico tende a reduzir todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: um mundo em que todos estariam de certa forma, interligados”.

A globalização política, econômica, social e econômica, impulsionada pelo capitalismo dominante, diminuiu as arestas dos incontáveis perfis sociais, tornando-nos cidadãos do mundo, ainda que com o exacerbamento de tribos radicais e rivais entre si, nas opiniões justamente globalizadas.

O encurtamento do tempo e espaço comunicativo, tornado instantâneo, propiciou aumento exponencial na quantidade, e decréscimo equivalente na qualidade, restrito a fofocas, trivialidades, troca de receitas de beleza, de doces e salgados, de dicas sexuais, de moda, enfim, todo o tipo de produtos e serviços consumistas e hedonistas.

O preconceito geral a tudo dificulta uma maior exposição profunda e íntima, sujeito a gozação, escárnio, desrespeito e ódio eventual e condenatório, expulsando-se o criador do perfil, por meio do bullying virtual.

Ironicamente, a comunicação à velocidade da luz difunde, em grande parte a mentira de cada um e de todos, e esconde a verdade total, agora inacessível como um celular antigo fora da rede da Internet.

As manchetes mundiais, sem as tintas indeléveis dos jornais em papel, digitadas com canetas virtuais, por todo e qualquer cidadão, transformados em jornalistas auto-credenciados, sem nenhum compromisso com a verdade, a não ser a invenção e divulgação de notícias beneficiadoras às suas tribos pertencentes, adquirem o caráter de verdade pelos seus apoiadores, e de mentira, pelos seus inimigos.

O instrumento comunicativo ultra democrático em sua criação e uso, serve de instrumento ditatorial a qualquer grupo social, político, econômico e cultural, globalizando-se a disputa do poder corrupto e nocivo, como se cada estado, cidade ou cidadão mantivesse uma bomba ideológica plantada no quintal, preste a ser colhida e vendida.

A guerra terrorista doutrinária digital acaba de ser iniciada, com prejuízo da aldeia global, com “índios” selvagens, no sentido pejorativo e preconceituoso, degladiando entre si, por restos de conversa estragada, adulterada e lixada.

Os novos índios deviam respeitar e imitar seus ancestrais reais, nas comunicações verdadeiras e sinceras entre os integrantes, as gerações e entre Deus.

A onipresença e a onisciência divina das nuvens digitais é um fake, na medida da superficialidade e do curto alcance no coração íntimo de cada internauta.



Deus reduziu-se a toda uma literatura ideológica, religiosa e filosófica, disseminada em instantes, num tempo e espaço mensurável, apagável, discutível quanto à sua verdade ou mentira.

Tornou-se produto de consumo lucrativo, performático, midiático e poderoso apenas no aspecto mercantilista.

O estado constante das guerras intra-tribos dispensa qualquer comprovação.

A erudição dos textos sagrados restringe-se aos especialistas no assunto, desde religiosos, filósofos ou curiosos, amotinados em seus nichos enclausurados, muitos orgulhosos de sua elevação espiritual assoberbada.

A coragem individualista, solitária e suicida virtualmente de se fugir da aldeia global deveria gerar uma onda oponente, real e sincera do credo divino, a ser cultivado pessoalmente, intimamente e profundamente.

O isolamento social deve acompanhar o psicológico, o filosófico, o religioso e moral, para se atingir a depuração prazerosa, materialista e hedonista do mundo, num processo meditativo, oracional e exortativo.

É essencial buscar Deus no âmago de cada ser, depositário de todas as qualidades infinitas, universais, benévolas, extraordinárias e maravilhosas do Criador e Mestre, para se atingir a iluminação etérea.


Wilson Nomura

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