• Wilson Nomura

A forma religiosa e o conteúdo espiritual


Imagem: Sara Nossa Terra


Os três maiores líderes espirituais não escreveram uma linha sequer de seus ensinamentos. Buda, Maomé e Jesus Cristo tiveram fiéis, discípulos e profetas a perpetuarem suas obras, seja pela compilação da tradição oral, do ditado direto da fonte ou de relatos posteriores à morte do iluminado, muitos anos depois.

A interferência humana falha e/ou incompleta na sagrada transcrição indica que o fanatismo religioso deve ser evitado, devido à terceirização da comunicação literária.

A mudança da forma da mensagem acarreta, mesmo que minimamente, a adulteração de seu conteúdo, seja pela boa ou má fé, seja por interesses circunstanciais, seja por algum ruído comunicativo.

Apesar de tudo isso, a eficiência didática do aprendizado celestial depende exclusivamente do leitor, com sua dedicação, capacidade, idoneidade e discernimento, ferramentas cognitivas que poderão entender a obra escrita em sua totalidade ou não.

Além disso, a tradução multi-linguística incorre em erros variados, por falta de léxicos correspondentes, por ausência de vocabulários precisos ou por deficiente interpretação do tradutor traidor, pois “Traduttore, traditore” (em italiano).

Um aspecto mais sério ainda, é a preparação espiritual a praticar o entendimento intelectual, ambos soberbos em sua deficiência e entendimento respectivos.

Se a fórmula para se tornar um “santo” é de domínio público e notório, a execução de seu conteúdo pode constituir um mistério assombroso a cada um de seus praticantes, visto variar em ingredientes, na dosagem, na ordem e no tempo de seu uso adequado.

No final, cada executor materializa a sabedoria do mestre, com perfeição relativa, pela plenitude que atinge, próxima ou distante da original.

A máxima de que o aluno sempre supera o mestre, nesse caso, trata-se de uma raridade, sendo mais comum o acontecimento oposto, em que o discípulo envergonha o doutrinador, declamando o seu nome em vão, em traição, em sacrilégio, em todo tipo de hipocrisia existencial. Basta checar a quantidade considerável dos que matam, violentam e roubam, em nome de Deus, seja em qualquer religião que abrace.

Certamente, o demônio, sob todos os sinônimos transcendentais, está por atrás desta artimanha, facilmente aplicável ao cidadão ou líder popular, religioso, militar ou político, que precisa de um argumento justificativo para suas maldades intrínsecas, acobertáveis somente aos fiéis fanáticos e cegos, que endeusam o adepto maligno, cosplay reverso do original divino.

A síndrome do Salvador é um fenômeno religioso mundial, pela necessidade humana da redenção pessoal, próxima ao redentor em pessoa, em carne e osso, e não em espírito distante, durante as rezas, as meditações, as penitências, as auto-flagelações, ou após a morte física.

Enquanto isto, a luta hercúlea, entre os que apostaram a vida e, comumente, o celibato forçado, para se ganhar a morte plena dos desejos corporais e impuros, permanece com batalhas perdidas na noite pecaminosa, onde a quantidade de orações deveria superar a qualidade das tentações.

Todavia, nenhuma delas superar a maior e mais diabólica: a soberba em se vestir as vestes da forma religiosa, sem que o conteúdo espiritual esteja maduro.



Wilson Nomura

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